Cabeça de Dinossauro 4 – Ludovic: Janeiro não é mais o pior dos meses

Quem é fã daquele rock underground, moleque e de várzea com certeza já ouviu falar do Ludovic. Mesmo com uma curta história de vida, a banda influenciou tanto no meio que já é possível chama-la de um “clássico” da modernidade. Não que eles sejam amplamente reconhecidos por alguma crítica ou público, mas sim por serem um suspiro de uma coisa que anda em falta aqui pelo Brasil: uma música honesta que dispense rótulos e bandeiras.

Você pode até não gostar dos arranjos e letras dos caras, dizer que tudo é muito cru, tudo muito isso ou aquilo, mas é impossível dizer que eles não são intensos e de um lirismo de dar inveja a muita bandinha indie sentimental por aí. Apelando para vocais que alternam entre gritos enfurecidos e sussurros melancólicos, o Ludovic construiu uma música que em um instante soa dramática como discurso religioso e em outros é um murmúrio solitárieo e frio. As letras, sempre pessimistas e até um pouco niilistas trazem a tona tanta negatividade que a gente as vezes até esquece da pontinha de esperança que tem em cada canção. As abordagens diretas como “Você sempre terá alguém a seus pés” são músicas de pura explosão emocional, utilizando sempre o recurso do “eu”, o que remete muito ao próprio compositor e vocalista Jair Naves, se opõe a abordagem em terceira pessoa de algumas músicas como “Trégua”, se distanciando bastente da ideia da pessoalidade do Ludovic, mas mesmo assim soando extremamente pessoal, lírica e principalmente, angustiante.

Meu amor, você ainda me tem a seus pés
Apesar de tudo, você ainda me tem a seus pés
Grande bosta, grande bosta
Você sempre terá alguém a seus pés

Você sempre terá alguém a seus pés – Ludovic

Meu testemunho falso,
meu crime em potencial,
meu filho enforcado no cordão umbilical
Parece amargo e infeliz?
Qual punição cabe aqui?
Meu feito heróico: eu me rendi

Trégua – Ludovic

Mas tudo isso seria muito pouco se não levassemos em conta uma apresentação ao vivo do Ludovic. Caos, uma certa dose de teatralidade e muita energia fez da banda o que é hoje. Fazendo um casamento entre o rock alternativo dos anos 90 e o post-punk, os instrumentais são agressivos e sujos, uma verdadeira orquestra para o que é a performance da banda sobre o palco. Fios de microfone em volta do pescoço, instrumentos destruídos, cadeiras arremessadas e quedas sobre o chão são quase que rotineiros nos shows do Ludovic. O que sempre valeu é o momento, é utilizar a música como forma de caterse e libertação.

Infelizmente, a banda terminou em 2008, mas cada integrante seguiu o seu caminho com novas e boas bandas. O vocalista e baixista Jair Naves em seu ótimo projeto solo, os guitarristas Eduardo Praça (Quarto Negro) e Ezekiel Underwood (Fire Driven) e o baterista Hugo Falcão na Hierofante Púrpura. Mesmo que nenhuma dessas bandas seja capaz de trazer o que era o Ludovic, vale a pena conferir.

Agora, a nós, reles mortais que nunca veremos o Ludovic ao vivo, nos resta os vídeos do youtube e as músicas gravadas. Janeiro infelizmente nunca mais vai ser o pior dos meses.

 

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